28 maio 2010

Uma carta que enviei para a revista Blitz e não foi publicada na revista de Junho 2010 (saída hoje)

Na Blitz n.º 47, de Maio de 2010, Luís Miguel Abreu conta a história do nascimento do álbum “Ar de Rock” de Rui Veloso.
Às tantas, nesse artigo, aparece uma citação de Francisco Vasconcelos (da Valentim de Carvalho) em que refere: “Com o Rui Veloso entrou o social e saiu a política da música popular”.
Ora, isto é um mito tão grande como o de dizer e escrever-se, ainda hoje, que Rui Veloso é o “pai do Rock português”.
Para além de Francisco Vasconcelos há muita gente que continua a proclamar esse mito aos quatro ventos. Bem se sabe que uma mentira mil vezes repetida, acaba por se tornar uma verdade.
Refira-se a propósito (e não é de mais lembrá-lo) que o álbum “Com as Minhas Tamanquinhas” de José Afonso foi, por um painel de críticos musicais da fornada pós- 25 de Novembro, considerado o pior disco do ano de 1976. Já nenhum desses críticos se deve lembrar disso porque, hoje, José Afonso é, quase unanimemente, considerado o maior génio criativo de todo o universo musical português.
Porque é que esse disco foi considerado o pior desse ano? Exactamente porque era um disco político, o mais político e datado de todos os discos de José Afonso, mas que ele, na sua coerência, considerava o seu melhor disco de sempre.
Quem ler as afirmações de Francisco Vasconcelos (e de outros que continuam a propalar o mito) fica com a ideia de que José Afonso e as suas canções eram presença habitual nos meios de comunicação social, da época pré-“boom” e pós -25 de Novembro. Pois, nada disso é verdade. José Afonso só foi convidado para cantar na RTP em 1981 e com a condição de só cantar fados de Coimbra, aquando do lançamento do seu LP “Fados de Coimbra e Outras Canções”.
Eu, que tinha 20 anos no ano do lançamento de “Ar de Rock”, lembro-me bem de ouvir na rádio os Arte & Ofício, os Perspectiva, os Tantra e tantos outros grupos portugueses de música Pop/Rock que nada tinham a ver com música política.
Devo dizer que eu nem sequer conhecia os Trovante, nem o Grupo Outubro, nem outros tantos cantores e grupos de música chamada de intervenção que surgiram no rescaldo do 25 de Novembro. No entanto conhecia e via ao vivo os grupos de Rock português que estavam em voga. Foi assim que, em 1978, apesar de viver na província, tive oportunidade de ver ao vivo bandas como os Faíscas, Arte & Ofício, Hosanna, Ananga-Ranga, Elo, Tantra e tantas outras, antes do lançamento de “Ar de Rock”.
Se é verdade que entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975 não existiu quase espaço para qualquer música fora do contexto político, também é verdade que, após o 25 de Novembro se passou o contrário, isto é, os cantores e grupos de intervenção passaram a ter o seu espaço reduzido no que se refere à transmissão da sua música nas rádios nacionais.
Rui Miguel Abreu já tinha escrito um artigo, intitulado “Rock Em Portugal Anos 70 Eléctricos & Revolucionários” na Blitz n.º 7, de Janeiro de 2007, que conta de uma maneira séria e honesta a história do Rock português pré-“boom”.
Há, portanto, uma aparente contradição entre o que refere Francisco Vasconcelos e o que foi escrito por Rui Miguel Abreu, na Biltz de Janeiro de 2007.

3 comentários:

Eduardo F. disse...

Muito bem argumentado, amigo.

E muito bem ter publicado por aqui. Para confirmarmos quem eles são.

A hipocrisia ou o ocultismo tomou o lugar e A Blitz já não é O Blitz por onde aprendemos a gostar de coisas novas e através dela conhecermos melhor o mundo.

Com essA publicação já só podemos esperar mais formatação. Serem os quase únicos é que lhes vai dando estatuto.

Abraço.

Sergio T. disse...

A Blitz revista tem muito pouco a ver com o Blitz jornal e nada de nada a ver com os saudosos Música e Som e Musicalissimo.

E havia o magnífico Rock em Portugal, que não sei se tem alguma coisa a ver com o nome do blogue.

Peço desculpa mas este é o meu primeiro post, e só hoje por acaso é que descobri este blogue, que tem muito que explorar para quem, como eu, se interessa por este tema.

Anónimo disse...

Olá Aristides , realmente o Blitz tornou-se um veículo de informação mais virado para a pop descartável e lixo comercial. Enviámos o nosso cd àlbum dos Clockwork Boys para review e nada de review da parte deles,e o disco esteve à venda na Fnac e teve uma boa aceitação.
Este ano vamos gravar um Lp pela nossa editora espanhola ,mas não vamos enviar nada para os bimbos que nem entendem nada de música dessa revistazeca.
A revista Blitz nada tem a ver com o Blitz jornal onde eu lia e consumia ávidamente tudo o que falavam sobre o punk rock.
Nem vale a pena perderes tempo com eles , que eles agora estão no mainstream , já não precisam de leitores como nós. felizmente ainda existe todo um jornalismo paralelo no Mundo da net,onde podemos ir lendo sobre o que realmente interessa ou não, na música portuguesa.

um abraço caro amigo

Marion Cobretti