22 junho 2008

CARTA DE AGRADECIMENTO

Logo depois de ter lido aqueles documentos sobre a avaliação dos professores, pensei
como lhe deveria agradecer, Srª Ministra. Afinal, aquelas horas passadas diariamente junto do
meu filho a verificar se os cadernos e as fichas estavam bem organizados, a preparar a mochila
e as matérias a estudar para o dia seguinte, a folhear a caderneta escolar, a analisar e a assinar
os trabalhos e os testes realizados nas muitas disciplinas, a curar a inflamação de uma
garganta dorida pela voz de comando “Vai estudar!” ou pela frase insistentemente repetida,
de 2ª a 6ª feira:”DESPACHA-TE! AINDA CHEGAS ATRASADO!” ou o incómodo e o tempo
perdido para o levar diariamente à Escola, percorrendo, mais cedo do que seria necessário, um
caminho contrário àquele que me conduziria ao meu emprego, tinham finalmente, os seus
dias contados. Doravante, essa responsabilidade passaria para a Escola e, individualmente,
para cada um dos seus professores. Finalmente, poderei ir ao cinema, dar dois dedos de
conversa no Café do Sr. Artur, trocar umas receitinhas com a minha vizinha (está entrevadinha,
coitadinha!) ou acomodar-me deliciosamente no sofá da sala a ver a minha telenovela
brasileira preferida.
O rapaz ainda me alertou para os efeitos das faltas o conduzirem à realização de uma
prova de recuperação. Fiz contas e encolhi os ombros - poupo gasóleo e muitos minutos de
caminho, de tráfego e de ajuntamentos. Afinal, ele até é esperto e, se calhar, na internet,
encontra alguns trabalhos ou testes já feitos… Sempre pode fazer “copy – paste”…
Efectivamente, as provas de recuperação parecem-me a melhor solução para acabar com a
minha asfixia matinal e vespertina. Ontem, a minha vizinha da frente, que tem dois ganapos na
escola do meu, disse-me que, se ele continuar a faltar, o vêm buscar a casa, e que, no próximo
ano lectivo, os professores vão tomar conta deles depois das aulas.
Oiro sobre azul. Obrigada, Srª Ministra. A Senhora é que percebe desta coisa de ser
mãe! A Senhora desculpe a minha ousadia, mas será que também não seria possível fazer uma
lei para os miúdos poderem ficar a dormir na escola? Bastava mandar retirar as mesas e
cadeiras das salas de aula e substituí-las por beliches, à noite. De manhã, era só desmontar e
voltar a arrumar. Têm bar, cantina e até duche. Com jeito, eles ainda aprendiam alguma
coisinha sobre tarefas domésticas, porque, em casa, não os podemos obrigar a fazer nada ou
somos acusados de exploradores do trabalho infantil com a ameaça dos putos ainda poderem
apresentar queixa junto das autoridades policiais.

Ao Sábado, Srª Ministra, podiam ocupá-los com actividades desportivas ou de grupo,
teatro, catequese, escuteiros, defesa pessoal…
O ideal mesmo era que os pudéssemos ir buscar ao Domingo, só para não se
esquecerem dos rostos familiares.
O meu medo, Srª Ministra é aquela ideia que a minha vizinha Sandrinha, aquela dos
três ganapos, comentava hoje comigo. Dizia-me que a Senhora Ministra quer criar o ensino
doméstico. Eu acho que ela deve ter ouvido mal ou então confundiu o jornal da SIC com
aquele programa da troca de casais do canal 24. Eu acho que isso não vinga em Portugal,
porque não temos a extensão de uma América do Norte ou de uma Austrália e, por outro lado,
tinha que comprar e equipar os VEI (veículos de educação itinerante), o que iria agravar mais o
deficit das contas públicas e o insucesso dos nossos miúdos. Foi isso eu disse à Sandrinha. Acho
que ela deve estar enganada. Logo agora, que podemos respirar de alívio porque não temos
que nos preocupar com a escola dos garotos, essa ideia vinha destruir tudo, porque os
obrigava a ficar em casa para receberem os VEI e aos pais ainda iria ser exigido algum
acompanhamento.
A Senhora faça é aquilo que decidiu e não oiça o que os inimigos dos pais e das mães
lhe tentam dizer (já agora, lembre-se da minha sugestãozita!). Assim, os professores, com
medo da sua própria avaliação, passam a dar boas notas e a passar todos os miúdos e, desta
forma, o nosso país varre o lixo para debaixo do tapete, porque é muito feio e incomodativo
mostrarmos, lá fora, que somos menos capacitados que os nossos “hermanos” europeus.


Uma mãe e encarregada de educação agradecida

1 comentário:

Maria José disse...

EXCELENTE TEXTO!
Já agora, para o trabalho ficar perfeito, porque não identificar-se, não sendo professora não deve temer retaliações.
Obrigada.